A psoríase é uma doença crônica, proliferativa e inflamatória da pele, caracterizada por hiperproliferação e diferenciação anormal de queratinócitos, além de infiltração de células imunes na epiderme e derme. Embora seja uma condição multifatorial, um número crescente de estudos tem investigado o papel da vitamina D3 na modulação do quadro clínico, e os resultados reforçam uma relação que vai muito além da saúde óssea.
Neste artigo, reunimos as evidências científicas sobre a suplementação de vitamina D3 em pacientes com psoríase, com base em estudos clínicos publicados em periódicos internacionais.
Vitamina D3: mais que uma vitamina, um pró-hormônio regulador
A vitamina D3 é considerada um pró-hormônio com efeitos autócrinos e parácrinos em tecidos que possuem VDR (receptor de vitamina D) — incluindo a pele. Seu papel na psoríase está relacionado a múltiplos mecanismos imunorreguladores:
- Inibição da proliferação de células T e Th1 (T helper 1);
- Moderação da função das células apresentadoras de antígenos, promovendo hiporresponsividade a antígenos;
- Redução dos níveis de IL-2, IL-17, IL-8, INF-a e INF-? — citocinas pró-inflamatórias associadas à fisiopatologia da psoríase;
- Aumento da produção de IL-10 e de células T reguladoras;
- Regulação da síntese e liberação de beta-defensina humana 2, peptídeos antimicrobianos e catelicidina, moléculas envolvidas na etiopatogenia da doença.
Esses mecanismos evidenciam uma relação intrincada entre os níveis de vitamina D e doenças crônicas autoimunes ou inflamatórias, como a psoríase — ainda que alguns mecanismos permaneçam sob investigação.
Estudo 1: Níveis Reduzidos de Vitamina D3 Podem Agravar o Quadro de Psoríase
Um estudo caso-controle, publicado no periódico internacional BMC Nutrition, mediu os níveis séricos de vitamina D3 em pacientes com psoríase e os comparou a controles saudáveis, avaliando possível correlação clínica.
Resultados
- A deficiência de vitamina D em pacientes com psoríase foi de 60%, contra apenas 17,5% nos controles saudáveis (P < 0,001);
- Os níveis médios de vitamina D foram de 28,3 ng/ml em pacientes com psoríase, contra 37,9 ng/ml nos controles;
- A associação entre deficiência de vitamina D e psoríase se manteve independentemente de sexo, idade, tabagismo, histórico familiar, hipertensão, uso de medicação crônica, alterações ungueais, duração dos sintomas e gravidade da doença;
- Os níveis de vitamina D foram sete vezes menores em pacientes com psoríase em comparação aos controles, com níveis mais reduzidos associados a maior duração e gravidade clínica da doença.
Conclusão do estudo
A detecção precoce da deficiência de vitamina D, seguida de intervenção oportuna, pode levar a melhores resultados clínicos e melhor qualidade de vida em pacientes com psoríase.
Estudo 2: Suplementação de Vitamina D Reduz a Severidade Clínica da Psoríase
Um segundo estudo, clínico e prospectivo, investigou os efeitos de altas doses de suplementação de vitamina D sobre parâmetros do metabolismo da homocisteína e sobre citocinas inflamatórias em pacientes com psoríase (Prtina et al., 2021).
Metodologia
- 40 pacientes com psoríase e deficiência de vitamina D confirmada foram selecionados;
- Todos receberam 5.000 UI de vitamina D ao dia, durante 3 meses;
- A gravidade dos sinais clínicos foi avaliada pelo PASI (Psoriasis Area and Severity Index) — instrumento validado internacionalmente para mensurar a extensão e intensidade das lesões psoriásicas.
Resultados
Após os 3 meses de suplementação, os pacientes apresentaram melhora considerável no escore PASI, indicando redução da gravidade clínica da doença.
Conclusão do estudo
A suplementação de altas doses de vitamina D pode representar uma medida preventiva e terapêutica complementar para reduzir a inflamação sistêmica em pacientes com psoríase.
O que isso significa na prática clínica
Os dois estudos, em conjunto, sugerem um caminho consistente:
- Pacientes com psoríase têm maior prevalência de deficiência de vitamina D do que a população saudável — o que reforça a relevância de investigar os níveis séricos dessa vitamina nesse público;
- A suplementação direcionada, em doses adequadas e sob acompanhamento, pode contribuir para a redução da gravidade clínica da doença, mensurada por instrumentos validados como o PASI.
Isso não substitui o tratamento convencional da psoríase, mas reforça a vitamina D3 como um coadjuvante terapêutico relevante, especialmente em pacientes com deficiência comprovada.